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Entrevista: Severino Filho, O Buim, o almanaque do futebol piauiense.

O ano era 2015, lá por volta de agosto, quando tivemos a ideia de construir um blog e uma página sobre o esporte local. No nosso planejamento, entrevistaríamos o que consideramos como o maior cronista/jornalista esportivo mafrense, o Buim, seria nossa primeira entrevista e matéria para o blog. Conseguimos marcar uma entrevista com o Severino Filho na FFP (Federação de Futebol Piauiense). A entrevista foi bem animada, o Buim foi bastante solícito conosco, nos tirou todas as dúvidas que ali levantamos e saímos de lá muito animados. 

Redigimos toda a entrevista e logo quando iriamos iniciar o projeto, uma apendicite entrou no caminho e atrasou tudo por longos dois anos. Passados tanto tempo achávamos até que tínhamos perdido a entrevista e depois de muita procura encontramos. 

Confira aqui na íntegra a entrevista que o Buim concedeu ao Diretório Esportivo em 2015:

Diretório: Eu gostaria antes, saber um pouco da sua formação acadêmica, quando começou seu interesse pelo futebol piauiense.

Buim: Na realidade o interesse pelo futebol piauiense, eu sempre tive, por conta do irmão mais velho da família, o Galego Gomes de Oliveira, ele começou como repórter de campo, o que foi contagiante. E o Galego, quando trabalhou como repórter de campo, ele trabalhou na fase áurea do futebol piauiense, quando nós disputamos a Série "A" do Campeonato Brasileiro, com os grandes clubes do sul do país, eles vieram para aqui, e isso me contagiou de maneira muito forte. De repente, bateu em mim uma vocação, motivada pelo irmão mais velho, isso desde os meus 9 anos de idade; pois acompanhei pela televisão todos os jogos da copa de 70, em que o Brasil levou a taça, tudo bem emocionante, e quando vemos um título daquele, primeira copa transmitida pela televisão, Brasil vencedor, uma seleção impecável, o irmão trabalhando em uma era de ouro do rádio, tudo fez com que meu interesse pelo futebol aumentasse. E foi neste momento que comecei a construir meu arquivo esportivo, em 71 veio minha primeira revista, fui juntando tralhas, isso e aquilo, o estudo ficou em segundo plano, meu interesse era futebol, rádio, de forma que, nem mesmo formação acadêmica possuo, pois não estudei. Quando terminei o científico/2 grau, imediatamente comecei a trabalhar com comunicação, antes pela Rádio Pioneira, meu trabalho consistia em datilografar a ficha dos jogos para o arquivo da rádio, e já fazia três vias, uma para mim, outra para o Galego e uma para rádio, ali, meu próprio arquivo estava sendo montado. Posteriormente, fui fazer reportagem de campo, e as coisas foram acontecendo, não havia o curso de comunicação, portanto não pude encontrar uma formação acadêmica que se identificasse comigo, tentei fazer em Recife, cheguei a fazer minha matrícula para o vestibular de Jornalismo em Recife, mas não pude comparecer, me lembro muito bem, por conta de jogo aqui, então fiquei sem uma formação acadêmica. Eu tive muita sorte, pois havia naquela época, a legislação permitia o exercício da profissão, com um registro provisório fornecido pelo Ministério do Trabalho, era renovado de três em três anos, era essencial que possuísse o ensino médio concluído, como eu tinha, e sempre renovei, até que recentemente o ministro Gilmar Mendes, comparou a profissão de jornalista com a de cozinheiro, e tirou a obrigatoriedade do diploma, imediatamente eu fiz o meu registro na delegacia do trabalho. Quanto a atividade do radialista, o que difere do jornalista, eu fiz curso promovido pelo Ministério do Trabalho daqui, justamente por não existir o curso de comunicação ainda no Piauí, quando o curso chegou aqui, eu já possuía quase dez anos de prática, eu já estava no mercado, não encontrei motivação e nem tempo de fazê-lo. Na época que comecei a trabalhar, a formação acadêmica era importante, mas não era fundamental, mas isso nunca foi um impedimento para que surgisse algum interesse, para que eu sempre tentasse aprender mais, para adquirir conhecimentos, fiz curso de reembolso postal, pelos correios, a coisa andou e estou aqui até hoje.

(Acervo Pessoal do Severino Filho)
Diretório: Então você publicou uns livros também, qual primeiro livro que você publicou?

Buim: Sempre tive um sonho de publicar um livro, esse sonho ele foi, tornado uma realidade graças ao empresário João Vicente Claudino, ele foi senador da república, eu trabalhava também para o departamento de esporte do grupo Claudino, quando me veio a ideia de fazer um livro, onde colocássemos os recordes do futebol brasileiro, uma espécie de Guiness Book, como eu já possuía um acervo bem interessante, uma vasta biblioteca, eu já sabia que não existia livro no mercado com essa espécie de conteúdo, sendo o futebol o tema principal, como ficaria muito pequeno o tamanho, aproveitei também para colocar curiosidades pioneiras, juntei tudo como uma coisa só levando o título "Curiosidades e Recordes do Futebol brasileiro", lançado em 1990 é uma edição esgotada, e confesso que posso colocar esse livro como um divisor de águas na minha carreira de cunho esportivo, pois eu estava iniciando como um escritor, mas como cronista esportivo aquilo obteve uma repercussão muito boa, "decolei de vez, com aquele livro."

Diretório: E quanto ao prêmio Abril de jornalismo?

Buim: O prêmio Abril veio em 96, foi um prêmio destinado aos melhores trabalhos das publicações da editora Abril, hoje a editora passa por dificuldades, mas antes a Abril possuía um vasto campo de publicações, em todas as áreas; agricultura, turismo, automobilismo, moda, casa, engenharia, tudo a Abril tinha revistas e publicações. A melhor reportagem esportiva, foi concebida pela revista Placar, com a participação de vários repórteres do Brasil, pois era focada no campeonato brasileiro da série "C", um só não dava conta, foi dividido por regiões e fiquei encarregado de cobrir a parte referente ao Piauí, Ceará e Maranhão, fiz minha parte, a matéria saiu e ganhamos o prêmio.

Diretório: Foi o único cronista piauiense a ganhar o prêmio????

Buim: Sim, posso até um dia deixar de ser o único, mas fui o primeiro, o que me deixa bastante envaidecido, e acima de tudo, porque o produto final foi bom, "senão não teria sido premiado".

Diretório: Neste inteiro período todo em que você acompanhou o campeonato piauiense, qual o campeonato piauiense de todos os tempos, qual foi o melhor campeonato piauiense para ti?

Buim: Acho que minha opinião é quase unânime para quem viveu essa época, 1977, foi um grande campeonato, eu tinha dezesseis anos de idade e no ano seguinte eu comecei a trabalhar para a Rádio Pioneira, o trabalho que te falei, datilografar, nisso eu já acompanhava desde 75, e 77 foi definitivamente o grande campeonato piauiense, para que você tenha uma idéia nós tivemos aproximadamente dez clássicos entre River e Flamengo-PI, todos com dez, quinze, vinte mil pessoas no Albertão, e no último, o público chegou a 37 mil pessoas pagantes, na realidade havia 40 mil pessoas. Era uma época que não tínhamos nenhum "medalhão" do sul do país jogando por aqui, os jogadores do River e do Flamengo-PI que não eram de Teresina, eram do futebol cearense, pernambucano, maranhense, portanto, uma prova que o torcedor de fato gostava do futebol do Piauí.

Diretório: E por que isso deixou de acontecer na mesma proporção e deixando de ver esse grande público no estádio? 

Buim: Certamente porque os dirigentes deixaram de colocar na vitrine, produtos que chamassem a atenção do torcedor, e este foi buscar outras alternativas de entretenimento.

Diretório: qual foi o melhor jogador do campeonato piauiense que tu viu atuar?

Buim: O atleta que mais me impressionou foi Rui Lima, tecnicamente ele era perfeito, fisicamente também, disciplinarmente deixava um pouco a desejar por sua irreverência, mas isso não prejudicava seu futebol, considero o Rui o que vi de melhor em termos de talento, qualidade técnica e juntando tantos outros predicados, também fazia gols. O Rui em seu primeiro ano foi o artilheiro do Piauí Esporte Clube, em um momento ele só deixou de marcar gols com mais frequência pois passou a servir o Kaká, quando formaram a tabelinha, que acabou sendo contratado pela Portuguesa de Desportos de São Paulo. Compreendo que seja difícil, mas é evidente que você deve ter a coerência de que não podemos comparar um lateral direito com um jogador de meia, nem com o atacante que o papel é marcar gols, então, cada um foi eficiente em sua função. Eu seria capaz de formar uma seleção piauiense, com cada um que foi eficiente na sua função, mas o Rui Lima foi o que mais me impressionou.

Diretório: É comumente falado que o Sima foi o melhor jogador…

Buim: Na realidade, existem coisas que precisamos saber separar, não o joio do trigo, pois aqui nós não temos joio, apenas trigo. Mas separar de uma maneira que fique bem clara; o Sima foi o maior goleador do futebol piauiense, sua vocação para artilheiro nenhum outro teve, o Sima não perdia gols, ele era completo como goleador, e também tecnicamente. O Rui me impressionou em todos os aspectos, ele era brigão, valente, dividia bola, se precisasse sair apenas driblando ele saia, se precisasse dividir com o zagueiro, para ficar sabendo quem ficaria com a perna quebrada ou não, ele iria. Seria injustiça dizer à você que ele foi o melhor jogador, ele foi o que me causou melhor impressão, por todas as qualidades que ele possuía. O Rui era um atleta no sentido mais completo da palavra, pois quando ele jogava no Piauí Esporte Clube, ele era também aluno da Escola Técnica Federal do Piauí, como aluno e atleta, em um único dia ele ganhou quatro títulos de campeão, pela manhã no futebol de salão e no handball, pela tarde campeão na decisão de basquete, e no final da tarde ele foi ao Pirajá e ganhou a prova de 800m, ele ganhou quatro títulos no mesmo dia, isso para entendermos que ele não era apenas um jogador de futebol, mas um atleta completo. Tivemos também goleiros espetaculadores, por exemplo o Toinho e o Hidemburgo, este último era um showman, da mesma forma não podemos comparar com esses dois, é preciso entender a separação que faço.

Diretório: No período entre os anos 1970 e 1980, foi o período em que o futebol piauiense viveu seu auge, seu melhor momento nacionalmente, por qual razão não existiu uma continuidade desse momento, com Tiradentes e outros times jogando na série "A"?

Buim: Eu credito aos dirigentes o fato de termos essa fase de ouro interrompida, por que com várias atitudes eles fizeram com que o torcedor fosse se afastando dos estádios, Teresina foi crescendo, os torcedores procuraram outras opções de lazer. Na década de 1970, ninguém falava em qualquer feriado ir para Parnaíba, ninguém falava essa coisa do litoral, com o passar o tempo tivemos outras opções, atrações, o Verdão com shows artísticos, passou a ter o teatro funcionando etc. O futebol que antes, era quase que exclusivamente a única opção de lazer para o teresinense, passou a ser apenas mais uma. Vou dar um exemplo prático, em 1977 nós tivemos 40 mil pessoas na decisão final do campeonato piauiense River e Flamengo-PI, nos três últimos jogos tivemos 100 mil, no ano seguinte, o River abriu o jogo para Picos para impedir que o Flamengo chegasse a final do campeonato, teoricamente, o River fez uma coisa que tirou 20mil torcedores do estádio. Em 1979 foi a vez do flamengo chegar a final do campeonato, e no último turno abriu o jogo para Picos, para tirar do River a possibilidade de ser campeão do turno, justamente para vingar 1978, consequentemente tirou os outros 20 mil torcedores do estádio. Cada clube agiu de maneira a tirar o outro, quando o natural seria que trabalhassem para se ter novamente Rivengo na final do campeonato, ou se Picos houvesse de ganhar, que ganhasse normalmente, sem abertura. Depois disso, os torcedores cientes da "mutreta", muitos pensaram "Isso aqui não é sério, eu não vou voltar para cá, não vou trazer minha família para cá". Coincidentemente após isso a televisão passou a transmitir futebol com mais frequência, nisso acarretou o êxodo do torcedor no estádio, e o clube foi ficando cada vez mais pobre, por falta de público o patrocinador também foi perdendo o interesse, pois já não tinha um grande público no estádio. A década de 80 foi o declínio do futebol piauiense, e a década de 90 foi quando chegamos no fundo do poço, nós começamos novamente a respirar, a se reerguer em 1999 quando Ciro assumiu o River, ele fez um bom time, trouxe jogadores de fora, trouxe do Vasco da Gama o Zada e o Fabrício Carvalho, o River foi tetra-campeão, jogou a copa João Havelange, ele ficou no módulo amarelo, que era uma espécie de 2ª divisão, fez uma grande campanha que permitiu nos reerguermos. Comparo que éramos um prédio de 30 andares que foi demorado a ser construído, e quando chegamos no 30ª andar, implodiram, e numa época ainda mais difícil e devagar para se reconstruir.

Diretório: Percebo que o torcedor não revela uma paixão muito grande pelo time jogar, estão cada vez mais passivos, a comparar com um episódio de 1973, quando os torcedores no Lindolfo Monteiro arrancaram as traves, e foram carregando-as até a sede do River.

Buim: É porque essa paixão foi jogada fora, o torcedor foi desestimulado, quando deixar de ir para uma final de campeonato por que seu rival "abriu" o jogo, para não chegar na final, e da mesma forma no ano conseguinte, isso acaba com qualquer futebol. Se olhar para o histórico do campeonato cearense, todo ano está lá Ceará, Ferroviária e Fortaleza. E hoje já é comum prefeitura investir em time da cidade do interior, antigamente só os grandes times tradicionais que chegavam na final. Picos, Cori-sabbá, 4 de Julho, então os grandes clubes passaram a ter esse outro problema, também. O torcedor que vai hoje ao estado, é o torcedor que faz parte de um processo de reconstrução do futebol do Piauí. Nós perdemos uma geração inteira, os garotos que viveram de 1990-1998, hoje é um torcedor do Corinthians, São Paulo, Vasco, etc, então houve um hiato. Coincidentemente, o êxodo do torcedor dos estádios aconteceu junto a massificação das transmissões de TV, hoje até série D podemos acompanhar na TV, passou a ser de tal forma que a renda da bilheteria do estádio já não sustenta time nenhum, mas sim cotas de transmissão, cotas de patrocínio, retorno de eventos.

Diretório: O Tiradentes foi o primeiro time a participar da série "A" do campeonato brasileiro, como você avalia a ascensão e o fim do Tiradentes, não apenas nacionalmente mas no campeonato piauiense.

Buim: O que aconteceu foi que Tiradentes foi uma iniciativa do governo do estado, o Brasil vivia uma ditadura militar, o interesse de qualquer ditadura é dar o pão e circo, para tirar atenção da massa para o que acontece politicamente. Se fomos olhar os grandes estádios, pelo menos 80% deles foram construídos durante a ditadura militar. Dr. Alberto Silva, que veio para governar o Piauí e mudar a imagem de um estado "pobre e falido", ele que tinha uma qualidade visionária, quando 1971 foi divulgado pela CBD (atual CBF), os clubes que iriam participar do primeiro campeonato brasileiro, com o Piauí fora da lista, ele foi ao Rio de Janeiro, falar com o João Havelange por que o Piaui estaria fora, ele disse “Não se você me der um estádio com capacidade para 20mil ou mais, eu garanto que o Piauí vai participar” nessa época as coisas aconteciam mais por critério político, Alberto Silva então arregaçou as mangas e nós tínhamos também um Ministro do Planejamento parnaibano – assim como Alberto Silva- que trabalhava em Brasília, com envio de verbas, assim logo começou a vir dinheiro para os projetos do Dr. Alberto, um deles era a construção do Albertão. Ele não perdeu tempo, homens trabalhavam de manhã, tarde e noite, em um ano as obras foram concluídas; as obras começaram em agosto de 1972, pedra fundamental lançada até antes, assim foi inaugurado em agosto de 1973. Quando as obras começaram o pessoal da CBD veio e viram o andamento da obras, e incluíram o Piauí no campeonato brasileiro. Com sua equipe, Alberto Silva, conversando também com Coronel Canudo da polícia militar, precisando de um bom time, pensou que se reforçasse o River, criaria um problema político com a torcida do Flamengo-PI, e vice-versa, foi preferível que criasse um time neutro, a polícia militar possuía um time de esporte, era o Clube Tiradentes de Subtenentes e Sargentos da Polícia Militar do Piauí, o time era amador, alteraram-se os estatutos, tornou o clube profissional, e começou a contratarem jogadores de nível técnico para fazer frente a qualquer time que viesse aqui. Para se ter uma idéia, tivemos aqui um jogador chamado Caio Cambalhota, ele jogou 1973 no Tiradentes, quando ele veio para cá, ele tinha sido titular do Flamengo-RJ, e quando saiu daqui voltou a ser titular novamente. Não eram jogadores em fim de carreira, eram jogadores novos em começo de carreira, o governo investiu alto, Tiradentes passou a ter um time competitivo, jogadores de vários estados que já haviam jogado em outros clubes, não existia nenhum complexo de inferioridade, havia apenas dois jogadores do Piauí que eram titulares absolutos, o goleiro Toim e o Sima. A campanha foi tão boa em 1973, 1974, 1975, em 1973 ele terminou em 19ª, hoje ele estaria rebaixado, mas naquela época eram 40 times. Em 1973 ele ficou à frente do Flamengo-RJ, Fluminense-RJ, em 1974 ele não se classificou para a fase seguinte do campeonato por pontos. Em 1975 se classificou ganhando do Palmeiras de 1X0, o nome Tiradentes é um nome respeitado lá fora, pois mesmo em 1983 quando Tiradentes possuía um time apenas de jogadores da região, ele também se classificou para segunda fase, ganhou do Corinthians aqui dentro, assim também do Fluminense. Mais tarde veio o crime do Tiradentes, ele já não contava mais com o apoio da polícia, pois o comandante da polícia já era inimigo político do Canudo, quando ocorreu o crime em que os jogadores do Tiradentes participaram de um linxamento de um corretor de automóveis, a polícia achou que ali era um motivo que precisava para reunir o estado maior da polícia do estado da polícia militar e desativar o Tiradentes. Dai em diante as coisas foram mais tímidas.

Diretório: O campeonato piauiense já teve muitos times. Autoesporte, Artistico, Tiradentes, Oeiras... Por que esses times desapareceram e hoje possuímos um campeonato longo e só sobram seis times.

Buim: Todos, sem nenhuma exceção, todos deixaram de participar por problemas de ordem financeira, quando entendido que por motivo político, acontece que o motivo político causou o problema financeiro. O futebol profissional hoje exige muito mais poder aquisitivo para manter um time à altura da competição.

Diretório: O River, hoje representante do Piauí na série "D", é o maior campeão estadual com 29 títulos, uma enorme diferença se comparado com o flamengo que conquistou apenas 17. O que faz do River, essa soberania em relação a quantidade de títulos?

Buim: A primeira coisa, sem desmerecimento, pois não o River não tem culpa, é que o Flamengo-PI ficou desativado desde final 1952 até começo de 1959, o River foi por diversas vezes campeão, sem que o Flamengo-PI participasse do campeonato. Mas, o Flamengo-PI também jogou alguns campeonatos sem que o River houvesse sido fundado ainda. O Flamengo-PI foi fundado em 1937 e o River em 1948, então é quase uma coisa pela outra. A verdade é que o Flamengo-PI viveu mais crises sem conquista de títulos. A prova que o Flamengo montou menos times com capacidade para ser campeão, é de que se você pegar apenas os campeões da era profissional, depois que o futebol foi tornado profissional, contando de 1963 a data atual, o River continua na frente com mais títulos. O River conseguiu formar mais times campeões por que durante quase toda sua existência, o River foi dirigido por grupos de maior poder aquisitivo, assim se manteve e montou melhores times.

Diretório: Os times piauienses quando participam da série "D" ou "C", destes anos 2000, apenas dois tiveram uma participação um pouco melhor. O Barras em 2007 e River em 2006, em 2002 chegou até a última fase. Por que esses times começam bem o campeonato mas não se mantém firme até o fim?

Buim: Normalmente, nós participamos da série "C" do campeonato brasileiro, e depois a partir de 2009 da série "D", com planteis a nível de campeonato piauiense e não de campeonato brasileiro. Pois, hoje, quando se quer criar um time de futebol, se entra em contato com algum empresário, alguém que negocia jogadores, você pede um goleiro, ele vai perguntar "Você quer um goleiro de série A,B,C ou D?" Esse nível difere o valor e a qualidade, os times do Piauí entram no campeonato brasileiro com o mesmo plantel que se disputa um campeonato piauiense, mas não dá para disputar o brasileiro. Não é atoa, que nós nunca conseguimos qualificação sequer, e aqui não falo em acesso, mas não conseguimos sequer qualificação para a segunda fase da série "D". Agora no ano passado o River montou um time competitivo para série D mas houve o problema de um jogador irregular, e isso atrapalhou,o River conseguiu esse ano, uma vez mais, montar um time a nível competitivo, o que parece estar fadado a ir para segunda fase, se vai conseguir o acesso eu não sei, mas apenas em ir para a segunda fase já vai ser um fato histórico. E isso não vai ser a toa, é porque agora estamos montando um time competitivo, a falta de investimento, devido aos problemas financeiros do nosso futebol, é o que fez que nós sempre tropeçassemos na hora de disputar a competição nacional.

Diretório: Houve em algum momento, alguma injustiça com o Piauí, por não ter conseguido uma vaga na série "C", quando criada a série "D".

Buim: Não, porque foi por critério técnico que nós perdemos a vaga. Quando a série "D", quando criada, ficou estabelecido que somente os X primeiros colocados ficariam na série "C", e o Piauí estava fora da lista. Ficamos atrás, creio que por 2 ou 3 posições.

Diretório: Para finalizar gostaria que o senhor deixasse uma mensagem, sobre o futebol piauiense.

Buim: Não devemos desistir do futebol do Piauí, nós que trabalhamos na crônica, nós torcedores, atletas, preparador físico, massagistas, técnicos, dirigentes, nós não devemos desistir do futebol do Piauí. Ninguém nasce vitorioso, a vitória é conquistada, assim que se chega em algum lugar, com todos foram assim, e nós também já fomos assim. Se estamos hoje, numa situação mais modesta, nada nos impede de continuar a lutar e conquistar os resultados, e digo mais, se algum dia chegarmos na série "C" do campeonato brasileiro, com esse River, que acho que podemos chegar, já começamos a melhorar, já teremos dois times do campeonato piauiense, um na série "C" e outro na série "D". A tendência é melhorar, todos precisam fazer sua parte. O futebol é algo complexo, a imprensa possui um papel muito importante, inclusive quando deve saber quando se deve divulgar, pois assim como se vende laranja, se a desmerecemos e dizemos que ela é podre, quem a compraria? Ninguém. Não que se vá esconder a verdade do torcedor, mas certas questões que prejudicam o marketing do futebol, poderiam ser colocadas em plano secundário. O torcedor precisa acreditar e participar, nenhum atleta rende sem o torcedor no estádio, o atleta precisa estar motivado, tudo isso é um universo, todos nós unidos em pró do futebol do Piauí, o produto final será o que tanto sonhamos.


por: Daniel Pessoa e Jordi Gomes

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